Sociedade Dessensibilizada

     

    É provável que a velha conversa na internet sobre o vício em dopamina e as reações dopaminérgicas que temos diante do uso das tecnologias, principalmente no que se refere às redes sociais, tenha prejudicado tanto nossa capacidade reflexiva quanto nossa saúde mental, seja verdade. Mas, do alto da minha arrogância, se eu tivesse que diagnosticar algo que, numa perspectiva anedótica, tem se tornado cada vez mais comum, eu diria que é a total falta de sensibilidade com a vida alheia, algo que tenho observado tanto na internet quanto fora dela.

    Veio-me à mente o vídeo de um rapaz com claro transtorno mental desmaiando ao tomar vacina, sendo chamado por muitos de "frouxo", "viado" e outros adjetivos ainda mais depreciativos. Lembrei-me de quando estive na rua e vi um motorista de ônibus xingando o condutor de um carro porque ele havia parado na faixa para que pedestres atravessassem. Ou da mulher que desmaiou em um espaço público e ficou bons minutos caída até que alguém teve a sensibilidade de ajudá-la. O quão dessensibilizadas têm se tornado as pessoas? Será que isso está correlacionado com o uso da tecnologia ou há algo mais envolvido?

 Mateus 24:12 (NVT)

"O pecado se espalhará tanto, que o amor de muitos esfriará."

    Gosto de pensar, dentro de uma antropologia cristã, que faz muito sentido uma sociedade naturalmente pecadora abandonar o amor ao próximo. Afinal, é muito mais lógico que o amor diminua do que aumente. Talvez o contexto direto desse versículo vá um pouco além do que simplesmente afirmar que “o amor ao próximo está diminuindo porque as pessoas são pecadoras”. Sim, não nego essa realidade. No entanto, inserido em seu contexto, quando se diz que o amor se esfriará, é muito mais provável que se esteja referindo aos cristãos do que ao mundo secular como um todo.

    E é aqui que surge a minha preocupação: onde foi parar o amor cristão? É notório o crescimento da influência que o cristianismo tem causado na sociedade brasileira, especialmente o cristianismo evangélico. Também é perceptível que a indiferença quanto à dor alheia talvez esteja crescendo na mesma proporção. Nós, cristãos, às vezes estamos tão entorpecidos em nossas vidinhas que ficamos sem reação diante da injustiça, da necessidade e da dor do próximo. Ou pior: talvez estejamos nos programando para não nos importarmos. Pode ser uma obediência distorcida a um mandamento próprio: “ame o próximo e odeie o inimigo”. Mas esse pensamento já foi reformulado há muito tempo.

Mateus 5:44 (NVT)

"Eu, porém, lhes digo: amem seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem."

    Você é cristão? O quanto está disposto a demonstrar misericórdia a alguém? Se for um petista pedindo dinheiro ou sangrando na rua, esse será seu limite para não ajudá-lo? Um bolsonarista talvez não mereça sua ajuda? Talvez alguém de uma religião de matriz africana não mereça, para você, tanta liberdade religiosa assim. Talvez sejam esses "crentes ignorantes" que estragam o seu dia postando sobre Jesus e Bíblia na internet.

Onde você estabeleceu o seu limite?

    Mais do que construir divisórias morais, talvez seja a hora de aceitar alguns "imigrantes ilegais" nelas — pessoas que você geralmente não acolheria ou ajudaria. Acredito que seja saudável pensar que, hoje, pode não ser o dia de revidar uma ofensa recebida na rua ou de discutir com alguém na internet que claramente não está interessado em compreender nada. Provavelmente, eu deveria demonstrar amor justamente a essas pessoas. Demonstrar graça, a mesma graça que, todos os dias, recebemos das mãos do Senhor. O amor do Senhor também age através da nossa misericórdia para com os outros.

1 João 4:19 (NVT)

"Nós amamos porque ele nos amou primeiro."

Ao leitor, A Graça e a Paz de Cristo. 

Gabriel Eliabe 

 

 

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